A Escrita e a Tecnologia na Educação
Por Rossane Cerqueira Barros
Este artigo tem como objetivo discutir o uso das diferentes linguagens na educação, dos livros impressos ao novo espaço da escrita ocupado pelas tecnologias da informação e sua utilização no contexto educacional. A cultura escrita transformou a forma de pensar do indivíduo. Surge então, um novo ambiente de formação de sentidos cujas idéias, que antes eram apenas oralizadas, tornam-se estruturas formais de pensamento. Com a palavra escrita, foi possível registrar o conhecimento proveniente da fala, agora conserva-se a informação contida no texto e o significado será reconstruído pelo leitor por meio de seu entendimento, sem a interferência direta daquele que está transmitindo a mensagem.
As diversas tecnologias desenvolvidas pelo homem, como a linguagem, os livros impressos e os meios virtuais foram expandindo as informações e as possibilidades de acesso ao conhecimento. Começando pela forma dos textos escritos, temos a presença da linearidade e a identificação clara do seu começo e fim. O que podemos observar é uma grande distância entre autor e leitor. O que de fato acontece nas escolas quando os alunos fazem a leitura dos textos ? Normalmente, quando lêem livros ou outros impressos, eles não têm a preocupação em fazer interpretações ou questionamentos, deixando de lado o desenvolvimento do pensamento crítico, tornando-os leitores, apenas consumidores das informações . Este é um grande problema que enfrentamos hoje na educação em termos de produção de conhecimento. Uma analogia feita por Sanches Miguel nos mostra essa relação entre a leitura e a não- compreensão:
“[...] é como caminhar no escuro...,é.. como abrir uma porta e entrar numa sala sem ter nenhuma expectativa concreta, e reconhecer, à medida que avançamos, uma cadeira, depois outra e outra; mais em frente uma mesa, depois uma janela e, de repente, ao fundo, um quadro negro...Os leitores competentes, pelo contrário, sabem de antemão que a porta que abrem é a porta de uma sala de aula. Não sabem se é uma sala grande ou pequena, mas esperam encontrar cadeiras, mesas e quadros [...] Os sujeitos de compreensão pobre lembram, como já assinalamos, menos que os sujeitos de boa compreensão, mas é provável que além disso para eles tudo tenha a mesma importância ou que destaquem aspectos secundários por derem insólitos ou chamativos” (MIGUEL, 1993).
É uma realidade a prática da memorização nas escolas e a falta de preparo dos professores para adequar os seus alunos às novas práticas pedagógicas contribuindo assim para a ineficácia do processo de ensino e aprendizagem. Na página impressa, as idéias tornam-se formas organizadas de pensamento. O leitor perde sua função na construção do texto, cujas informações são incontestáveis. Contrariando essa idéia, Barthes nos traz que:
“o que está em jogo no trabalho literário é fazer do leitor não mais um consumidor, mas um produtor do texto ”(BARTHES, 1992, pág. 38)
Com o surgimento da tecnologia da informação e comunicação, estrutura-se uma nova forma de pensamento, de ler e escrever. A base da informação vai além da palavra escrita, podendo associar a imagem e o som, movimento, comentários e associações a diversos documentos que fazem parte da natureza hipertextual. Com esses meios digitais os textos tornam-se acessíveis de qualquer lugar. Há múltiplos ambientes virtuais de aprendizagem e produção de textos. Temos como por exemplo os utilizados como fonte de pesquisa e aqueles de forma mais flexível, em que podemos produzir e fazer modificações(chats, blogs,lista de discussão, email, etc). Nesse espaço da escrita, ressalto a participação do leitor na produção dos textos como também, a chance de dialogar com o escritor, criando uma relação interativa. O texto aqui é escrito e lido de forma multilinear, não tem uma ordem determinada, os leitores podem interferir, acrescentar, alterar e definir seus próprios caminhos de leitura.
É importante analisar algumas questões referentes ao entendimento dos documentos impressos. Muitas das vezes, colocamos a responsabilidade nos alunos pela incompreensão da escrita nos diversos textos lidos. Pois, neste momento precisamos levar em consideração que os conteúdos selecionados devem ser direcionados de acordo com a realidade de cada aluno, dando maior significado e sentido para eles.
Cabe ao professor, sabendo a importância que a escrita tem no ambiente escolar, estabelecer novas formas para que os alunos tenham uma melhor compreensão do que está lendo ou escrevendo. De acordo com Edith Litwin, suas pesquisas apontam que a utilização dos meios eletrônicos para o ensino não vai melhorar a aprendizagem dos alunos, certamente, nos mostra uma maneira diferente, complementar de aprender num processo de transformação entre docente e aluno.
Analisando os diferentes contextos educacionais, vimos que de acordo com o pensamento de Maria Helena Bonilla, a maioria das escolas hoje valorizam a escrita, com a utilização dos impressos como sendo a verdadeira e única via de acesso ao conhecimento. Percebemos que há uma grande resistência por parte dos profissionais da educação em relação as novas tecnologias. Embora os avanços apontem diferentes recursos para a educação, não resta dúvida de que a cultura escrita predomina nos diferentes ambientes educacionais. É um desafio ainda para a educação escolar a articulação com esse novo espaço de aprendizagem.
Referências:
BOUGNOUX, Daniel. Introdução às ciências da informação e da Comunicação.Petrópolis: Vozes, 1994. 336p.
CHARTIER, R. Cultura e escrita, literatura e história. Porto Alegre: Artmed, 2001
In: Escrita e Tecnologia, disponível em:
LITWIN, E. Seminário Internacional sobre “Tecnologia Educacional no contexto latino- americano, México, ILCE, 1994
SANCHES M. E.. Los textos expositivos: estratégias para melhorar sua compreensão,Madri, Santillana, 19993.
